quarta-feira, 18 de novembro de 2009

proposta pedagogica

IDENTIFICANDO AS CARACTERÍSTICAS DA ABORDAGEM ESPORTIVISTA

Diante da frustração e desilusão resultante da reforma educacional da Escola Nova, surge um radicalismo em relação aos métodos pedagógicos desenvolvidos por esta abordagem, conseqüentemente, uma nova teoria pedagógica aparece no cenário: a pedagogia Tecnicista (SAVIANE1995, p.23). Esta abordagem de acordo como o Saviani (1995, p.24) é pautada na hipótese “da neutralidade científica e inspirada nos princípios de racionalidade, eficiência e produtividade, essa pedagogia advoga a reordenação do processo educativo”, num processo de racionalização semelhante aos executados nas fabricas, ou seja, a educação passa a seguir um modelo de objetivação do trabalho pedagógico. O autor supracitado salienta ainda que essa pedagogia busca organizar a educação de modo a torná-la racional, minimizando as interferências subjetivas que pudessem pôr em risco a sua eficácia e para atingir tal aspecto mecanizar o processo educacional.
Neste contexto encontramos a Educação Física, prática pedagógica que desde sempre acompanha a história da humanidade, ela aos poucos se consolidou na Sociedade Capitalista, pois esta sociedade precisava desenvolver um corpo forte que vendessem a força física, conseqüentemente o exercício físico torna-se instrumento, remédio e receita, julgando-se por meio deles resolver os problemas materiais de vida que as pessoas enfrentavam na época (COLETIVOS DE AUTORES 1992, p.50-51), simultaneamente a isto, o desenvolvimento e o fortalecimento do físico passo a ser responsabilidade da Educação Física e uma razão para a sua existência dentro do sistema educacional (COLETIVO DOS AUTORES 1992, p. 52).
Ao longo do tempo a Educação Física passou por um processo de fortalecimento do caráter científico oriundo das ciências biológicas e a incorporação da autoridade do Médico Higienista; por uma formação nas instituições militares e pela influência dos métodos Desportivos Generalizado de Augusto Listelo e do método Natural Austríaco Gaulhofer e Streichere que finalmente culminaram numa esportivização desta prática pedagógica no âmbito escolar (COLETIVO DOS AUTORES 1992, p.53-54). Conforme o Coletivo de Autores (1995, p. 54) a cultura esportiva passa a predominar em todos os países de influência européia, sendo então considerado o principal elemento da cultura corporal nestes países. A influência do esporte aumenta paulatinamente e passando a determinar os conteúdos e a relação professor-aluno, os princípios da esportivização como: eficiência, produtividade, racionalidade e competição, reordenam Educação Física escolar.
No Coletivo de Autores (1992, p. 54), os princípios apresentados logo acima são apontados como sendo advogados pela pedagogia Tecnicista, então se entende que identidade Esportiva da Educação Física é fortalecida pelo Tecnicismo, fato compreendido por possuírem idênticos pressupostos.
Segundo Libânio (1999, p. 29) a escola que atua nos parâmetros do Tecnicismo serve para aperfeiçoar a ordem social vigente (Capitalismo), sendo uma articuladora direta do sistema de produção, na mesma perspectiva, o Coletivo de Autores (1992, p.36) enfatiza que a atuação docente de Educação Física historicamente tem defendido o interesse da classe dominante quando objetiva o estudo da aptidão física, pelo que notamos existe uma acentuada concordância entre Esportivização e Tecnicismo.
Por outro lado, o capitalismo tem o objetivo de (...) “adaptar o homem á sociedade, alienando-o da sua condição de sujeito histórico, capaz de interferir na transformação da mesma” (COLETIVO DOS AUTORES 1992, p.36), conseqüentemente a Educação Física tem contribuindo para estes interesses quando atua nos moldes da esportivização como já enfatizamos. A prática docente neste contexto apóia-se também na pedagogia Tradicional influenciada pela tendência biologista onde objetiva-se o adestramento dos indivíduos (COLETIVO DOS AUTORES1992, p. 36). Estas concepções fundamentam um tratamento dado ao conhecimento vinculado pela Educação Física, ou seja, o conhecimento que se pretende desenvolver é os exercícios físicos e as atividades corporais que possam permitir o máximo de rendimento esportivo (COLETIVO DOS AUTORES1992, p. 36).
Entretanto, Neira (2008, p. 103) expõe a idéia de que apesar de existir uma incessante argumentação dos projetos de educação centrados na formação de indivíduos que possam atuar no sistema neoliberal, existem outras formas de conceber a formação do homem, formas que permitam a estruturação do sujeito social. Para tanto, nossas construção de conhecimento busca a igualdade, direito social, justiça social, cidadania e espaço público, não o interesse econômico, produtivista, empresarial e financeiro. Para silva (2002) apud Neira (2008, p.103-104) o currículo escolar é o fator decisivo no processo de construção de uma sociedade mais igualitária, ele representa as relações de práticas de significados, identidade social e poder.
Segundo o mesmo autor dois pensadores foram importantes para a esportivização do currículo de Educação Física: Tyler (1974) e Fisher (1934), o primeiro estabeleceu um currículo comportamentalista que foi adotado na educação estadunidense. Fisher, por sua vez constrói argumentos que justificavam a prática de esportes no âmbito escolar dos EUA, ele enfatizava que: - “a prática dos esportes ensinará o homem a viver da melhor maneira possível, fará com que cada uma dos seus hábitos contribua para o aumento da sua eficácia”, Neira (2008, p. 110-111).
No Brasil esta prática perdurou como Hegemônica durante muito tempo devido as política executadas pela ditadura militar, Neira (2008, p. 111) apud Taborda de Oliveira (2004). Para o autor citado a Educação Física no regime militar foi pensada como um instrumento de controle social, em conseqüência disto, estabeleceu-se o currículo técnico-esportivo.
Neira (2008, p.124-125) ao citar Michael Apple faz uma reflexão sobre a predominância das tendências Desenvolvimentistas, Psicomotora e “Esportivista”, para o autor a classe dominante exalta os conhecimentos existentes nestas abordagens pedagógicas, além disto, fortes construtos culturais como: mídia, produção científica das universidades, moda, perpetuam-se na imaginação social de forma hegemônica.
Na continuidade desta exemplificação, logo entendemos que a Educação Física transmite os valores sociais da classe dominante a classe dominada, sem, entretanto permitir questionamentos e contestações que possam colocar em risco os valores vigentes. Giroux (1983 e 1986) citado por Neira (2008, p. 125), elabora uma análise das pedagogias Tecnicistas, o autor citado salienta que a concentração desta abordagem na racionalidade burocrática e na eficiência, deixa de considerar o caráter histórico, ético, político das ações dos homens como sujeitos sociais, produzindo com isto a reprodução da desigualdade social, injustiças e manutenção do status quo.


Segundo Castellani Filho (1988) apud Neira (2008, p.206), a Educação Física durante muito tempo mantém uma formalidade que a caracterizou como atividade escolar e não como componente curricular, Neira (2008) é enfático ao afirmar que ainda existe um caráter formalista ainda presente no universo pedagógico de Educação Física.
O autor entende que apesar de ter adquirido status de componente curricular obrigatório e está vinculada a proposta pedagógica da escola, a preocupação dos professores parece ser uma mistura entre a educação corporal, aprendizado das modalidades esportivas, promoção da saúde e recreação e lazer.
Daolio (1995) citado por Neira (2008, p.206) faz referência a uma entrevista realizada com professores de escola pública paulistas onde se percebeu a dificuldade dos mesmos de argumentar a especificidade da Educação Física, o discurso dos professores oscilavam entre o treinamento esportivo, promoção da saúde, socialização e desenvolvimento física entre outros. O autor supracitado denota que este fato ocorre devido à existência de práticas que estão muito próximas da Educação Física escolar (esportes no clube, a academia de ginástica, clinicas, entre outros), possivelmente a Educação Física é uma prática social construída culturalmente e transmitida tradicionalmente em diferentes espaços.
Celante (2000), Devide (1999) e Lovisolo (1995) apud Neira (2008, p. 207), demonstram mediante entrevista feita a alunos e pais da rede particular que o componente curricular é considerado de pequena relevância; os alunos não conseguem definir o que aprendem e o que é ensinado; existindo também a falta de compreensão sobre o papel da Educação Física no currículo escolar.
Neira (2008, p. 207) entende que muitas vezes os professores em questão assumem papeis que não exige formação especifica universitária, pois para entregar material esportivo aos alunos não é preciso uma formação superior, além disto, no cotidiano esportivo pessoas que não possuem formação em licenciatura são chamadas de professores.




Além disto, Neira (2006, p. 10) aponta que o currículo pautado em técnicas torna a prática acrítica, não contextualiza, e reproduz a educação bancaria que foi tão criticada por Paulo Freire, já Libânio (1999, p. 23) entende que uma educação tecnicista tem a função de preparar a mão-de-obra para o mercado de trabalho, sendo este tipo de educação uma forma de satisfazer as metas econômicas, sociais e políticas, conseqüentemente, compete à educação ajustar o comportamento dos alunos a estas metas.
Como vimos não é de estranheza que a Educação Física tenha este caráter formalista e que muitas vezes seja confundida e mal compreendida tanto por alunos como pelos seus pais, pois como Saviani (1995, p. 66) distingue, os conteúdos devem ser relevantes e significativos para que exista um aprendizado, caso contrário, tudo será uma farsa educativa.
Situando a investigação no processo de formação acadêmica do profissional de Educação Física, realizaremos um recorte no dado momento onde ocorreu o apogeu da formação de cunho predominantemente esportivista. Daólio (1994) apud Darido (1999, p. 31) é enfático ao afirmar que nas décadas de 70 e 80 a formação dos docentes era eminentemente esportivizadora, sendo explicito o objetivo de ensinar habilidades esportivas para conseguir selecionar alunos aptos para as equipes.
Neste contexto, Darido (1999) e Betti & Betti (1996) encontram dois tipos de currículo de Educação Física: - o tradicional-esportivo e o cientifico, sendo o primeiro constituído de disciplinas práticas que ensinavam habilidades esportivas e faziam uma dicotomia entre a prática e a teoria; o segundo currículo e pautado por disciplinas biológicas (aprendizado motor, fisiologia do exercício e biomecânica) e disciplinas da área de humanas (filosofia da Educação Física, sociologia, historia da educação e da Educação Física entre outras), este currículo por sua vez, tem o objetivo de fomentar o aprendizado de como se deve ensinar, ou seja, o conhecimento deve fornecer os subsídios necessários para a compreensão do processo de ensino-aprendizagem (DARIDO 1999, p 31-32).



Betti & Betti (1996) apud Darido (1999, p. 32) indica que as mudanças conceituais e epistemológicas que sugiram nos anos 80 e 90 originaram o currículo científico, desta forma, muitos autores pesquisaram e elaboraram trabalha dentro desta temática, em dados momentos estes pesquisadores discutiam as questões políticas da formação profissional (CARMEM, 1982; MEDINA, 1983; COSTA, 1984; FERREIRA, 1991) em outro, discute as questões dos procedimentos metodológicos e didáticos (MOREIRA, 1991; ALBURQUERQUE, DARIDO & GUGLIELMO, 1994).
Por outro lado, Marinho (1980); Cavalcanti (1984); Castellani Filho (1988); Ghiraldelli Jr (1988); Betti (1991); Bracht (1992) e Soares (1994) apontam em suas pesquisas que na história da Educação Física existe uma estreita relação entre esta disciplina e as instituições militares e esportivas (NEIRA 2008, p. 213).
Neira (2008, p. 213) ao citar Bracht (1992) discorre que a Educação Física é um termo muito abarcante, ela comporta tantos elementos da cultura corporal que passa a ser entendida e confundida como os próprios elementos e conhecimentos desta cultura (ginástica, esporte, recreação, psicomotricidade, agente promotor da saúde e preparação física entre outros).
A abordagem tecnicista/esportivista a partir dos anos 70 passa a enfrentar oposição de novas abordagens Darido (1999 p.16-17), a autora entende que as novas abordagens surgem para romper com o modelo mecanicista. São elas: psicomotricidade, desenvolvimentista, integracionista-construtivista, crítico-superadora e sistêmica, apesar de haver outras abordagens que transitam no meio acadêmico de Educação Física estas são bastante representativa.
Entretanto Darido (2003) apud Neira (2008, p. 215) salienta que a despeito de haver um grande número de abordagens, é forte a tendência da concepção biologista na prática de Educação Física, então nos perguntam: - por que existe a predominância da abordagem tecnicista/esportivista? De acordo com os autores supracitados esta situação “se dá em função da formação inicial e continuada dos seus docentes e da mescla de tendências que concorrem no âmbito educacional”; Já para Saviani (1985) apud Neira (2008, p. 215) existe uma dificuldade na prática docente, de um lado o professor utiliza a abordagem tecnicista, do outro sofre pressão da estrutura escolar que direcionam a prática para uma vertente mais progressiva; Ghiraldelli Jr (1988) apud Neira (2008, p. 215) entende que estas tendências são mais ou menos incorporadas e estão vivas no imaginário dos professores atuais.
De acordo com os autores citados logo acima, parece que existe certa confusão no âmbito prático da Educação Física, ou seja, os autores entendem que tanto a abrangência do campo de atuação como diversidade de conhecimentos tratados por esta área criam uma crise de identidade, talvez toda esta falta de entendimento dê andamento a possível utilização do esporte com valor máximo da Educação Física.
Darido (2005, p.20) expõe claramente esta crise de identidade quando denota que a compreensão de Educação Física assume “vários sentidos nas ultimas décadas do século XX no Brasil. Isto significa que diferentes significados podem ser atribuídos ao termo”. A autora entende que a Educação Física significa três coisas: uma área de investigação científica; uma profissão regulamentada; um componente curricular da educação básica. Possivelmente, acredita-se que este fato possa causa conflitos de entendimento e interferir na prática pedagógica deste componente curricular.
A despeito desta esportivização e da crise de identidade, a própria Educação Física segundo Betti (1991) apud Darido (1999, p.30) tomam consciência da necessidade de teorização de sua prática para supera suas crises, como já discutimos anteriormente, desta procura surge o currículo cientifico.
De ante do currículo cientifico nasce à perspectiva de uma nova Educação Física que respondesse as necessidades da sociedade vigente, para averiguar estes fatos Darido, De Ávila & Batista (1995) apud (DARIDO 1999, p. 36) realizaram um estudo comparando o discurso com a prática profissional, estes autores descobriram que apesar de haverem avanços, os professores que tiveram uma formação científica apresentaram características diretivas, utilizavam apenas parcelas da cultura corporal (esportes tradicionais), empregavam procedimentos tradicionais. Nesta caracterização, nota-se que o currículo científico não resolveu a tendência histórica deste componente curricular em fomentar a continuidade do rendimento e desempenho esportivo no âmbito de sua atuação.
Para Betti (1994) apud Darido (1999, p. 37) o problema esta na formação dos profissionais, ou seja, a referida autora demonstra mediante a exposição das entrevistas com alunos do último ano de graduação que existe um abismo entre a teoria e prática na formação dos profissionais, provavelmente esta problemática tem prejudicado a qualidade da formação dos docentes e impossibilitando os resultados do currículo científico.
Como vimos existe uma relação estreita entre o componente curricular (Educação Física) e o esporte, ao longo do tempo este elemento da cultura corporal tomou dimensões que o configuraram com principal conteúdo, fato este tido como esportivização. Embora existam inúmeras tentativas de romper com este modelo (psicomotricidade, desenvolvimentista, integracionista-construtivista, crítico-superadora, sistêmica e etc.), ele persiste ao longo anos na Educação Física.




ANALISANDO OS DOCUMENTOS NORTEADORES DA EDUCAÇÃO NACIONAL.


Com a finalidade de conhecer melhor a Educação Física escolar faremos de antemão uma analise dos documentos Norteadores da Educação Nacional, sabiamente entendemos que o Brasil é um país continental e que seu sistema de ensino e gigantesco, sendo um constante desafio para os educadores e gestores, por conseguinte, foram desenvolvidas legislações que organizam os sistemas de ensino em cada esfera hierárquica (federal, estadual e municipal).
A Constituição Federal Brasileira (05/10/988) no capítulo III, artigo 205, aponta a Educação como um veículo capaz de desenvolver e preparar as pessoas para o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho, sendo um dever da família e do estado (LDB, 9.394/96) artigo 2º.
Neste contexto, Darido (2005, p. 51) percebe que existe uma relação de dependência entre todos os documentos norteadores, conseqüentemente, qualquer que seja a lei que venha a ser aprovada, deve obedecer ao ditame da lei maior.
De acordo com Darido (2005, p. 52) o Brasil teve durante o seu desenvolvimento três Leis de Diretrizes e Bases: a lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 1961; a lei nº 5.692 de 11 de agosto de 1971 e a lei nº 9.393/ 96, que é a atual lei em vigor. Esta última passou 08 anos no congresso nacional para ser promulgada e três legislaturas.
Após ser aprovada esta lei passou a nortear a ação organizacional dos sistemas educacional nacional, onde a mesma estabeleceu três diferentes neveis para a educação básica: (1) infantil, objetiva o desenvolvimento integral da criança; (2) fundamental, tem a finalidade de desenvolver a formação da cidadania; (3) médio, visa aprimorar os alunos como pessoa humana e prepará-los basicamente para o trabalho e a cidadania.
A primeira LDB (lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 1961) considerava a Educação Física obrigatória nos cursos de grau primário e médio, porém, com a reformulação de 1971 houve mudanças que ampliaram a obrigatoriedade a todos os níveis e ramos de escolarização (CASTELLANI FILHO 1998 apud DARIDO 2005, p.55). Neste mesmo ano existia o decreto nº 69.450/71 que respaldava a divisão em turmas por sexo (COLETIVOS DOS AUTORES 1992, p. 54), com este sentido, fica clara a contribuição que a legislação dava para o caráter formalista que existe na Educação Física.
A relação entre a LDB a e abordagem pedagógica de Educação Física é explicita, na lei nº 5.692/71 a Educação Física era considerada atividade, ou seja, apresentava todos os cunhos de uma educação Tecnicista/Esportivista, entretanto com a nova LDB (lei nº 9.393/ 96), a Educação Física passa a ter status de componente curricular obrigatório, integrado a proposta curricular da escola Darido (2005, p. 59), de acordo com esta autora, somente em 2001 foi promulgada uma alteração ao § 3º do art. 26 da LDB, fato que inclui o termo obrigatório após a expressão componente curricular, sendo atribuída a obrigatoriedade a este componente curricular.
Cabe ressaltar aqui, que LDB no seu art. 2º fomenta a educação cidadã ao expressar os princípios de liberdade, ideais de solidariedade humana e o pleno desenvolvimento do educando com seus eixos norteadores, inclusive, esta lei fundamenta as ações educacionais no preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (BRASIL, Lei nº 9.394/96), então nos perguntamos, qual abordagens satisfaria uma educação voltada para uma formação cidadã? Seria provavelmente a proposta tecnicista/esportivista, ou melhor, ela é capaz de satisfazer as exigências impostas pela Constituição Federal (05/10/988) e pela LDB 9.394/96?
A saber, a esportivização é de caráter diretivo e envolve processos e técnicos que visam desenvolver e aprimorar a força física, moral, cívicas, psíquicas e sociais dos educandos (BRASIL 1998, p.21), esta proposta por apresentar neutralidade cientifica não favorece a criação de um sujeito crítico, emancipado e reflexivo, além disto, sabe-se que a esportivização segundo Castellani filho (1994, p.107) reforça o caráter instrumental que se configurava no zelo enfático na preparação, recuperação e manutenção da força física voltada para o trabalho, na mesma direção o decreto de lei nº 69.450/71 no seu artigo 1º confirma este pressuposto. Diante deste contexto, o § 1º do artigo 3º do Decreto nº 69.450/71 é enfático ao afirmar que a aptidão física constituía o referencial fundamental para os planejamentos, orientações, controle e avaliação da Educação Física escolar Castellani Filho (1994, p. 108-109).
Essa compreensão e fundamental para situarmos nossa investigação, pois é de extraordinária relevância o entendimento do fazer pedagógico. A educação tem incutido nas suas ações pressupostos de como devem ser os homens, a sociedade, as relações sociais, conseqüentemente, (...) “a prática educativa é socialmente determinada, pois responde às exigências e expectativas dos grupos e classes sociais existentes na sociedade” (...) Libânio (1994 p.120). “Na verdade, não devemos ter dúvidas de que o trabalho docente é uma atividade que envolve convicção e opção sobre o destino do homem e da sociedade” (...) LIBÂNIO (1994 p.122). Neste entendimento, (...) “a escola tem por principal tarefa na nossa sociedade a democratização dos conhecimentos, garantindo uma cultura base para todas as crianças e jovens” Libânio (1994 p.127).
Na compreensão do mesmo autor, (...) os métodos, á medida que expressam formas de transmissão e assimilação de determinadas matérias, atuam na seleção de objetivos e conteúdos (LIBÂNIO 1994, p.154).
Neira (2008, p. 240) entende que (...) “o método sugerido para uma abordagem cultural da Educação Física não comporta, em sua rotina, os tradicionais elementos da pedagogia tecnicista (...), o método é uma (...) “concepção de sociedade, da natureza da atividade prática humana no mundo, do processo de conhecimento e, particularmente, da compreensão da prática educativa” (...) (LIBÂNIO 1994, p.1.51).
No contexto, a configuração do “trabalho escolar está vinculado a diretrizes nacionais, estaduais e municipais de ensino” (...) (LIBÂNIO, 1994 p. 123), ou seja, todas as propostas de educação devem ser organizadas segundo suas leis e seus documentos norteadores.
Partindo deste pressuposto, os Parâmetros curriculares nacionais (PCNs) são propostas curriculares significativas não obrigatórias, elaborados pelo Ministério da Educação e do Desporto. Os PCNs têm objetivo de ajudar os alunos a aturem no mundo como cidadãos participativos e reflexivos, conhecedores de seus direitos e deveres. De acordo com os estes norteadores (BRASIL1998) apud Darido (2005, p. 59), os conteúdos da cultura corporal de movimento promovem uma formação cidadã voltada para a participação, solidariedade, criticidade e autonomia.
Na abordagem cidadã propõe-se a construção da cidadania (DARIDO 2005, p. 18), ou seja, é uma proposta pedagógica que está em oposição ao Tecnicismo/Esportivista, pois como já abordamos em momentos anteriores a esportivização comporta os pressupostos do Tecnicismo: (1) neutralidade científica inspirada nos princípios da racionalidade, (2) eficiência, (3) produtividade e competição (SAVIANI 1995, p. 23); já os princípios da esportivização são: (1) rendimento atlético/esportivo, (2) competição, (3) comparação de rendimento e recordes, (4) regulamentação rígidas, (5) sucesso no esporte com sinônimo de vitória, (6) racionalização de meios técnicos (COLETIVO DE AUTORES 1992, p. 54); de igual modo Bracht (1989) apud Darido (2005, p.175), enfoca que o esporte possui características básicas como: (1) competição, (2) rendimento físico-técnico, (3) recorde, racionalização e cientificização do treinamento. Notadamente (supostamente) entendemos que o tecnicismo e a Esportivização seguem as mesmas linhas e pressupostos.
Neste contexto, entendemos que a prática fundamentada na concepção tecnicismo/esportivista é contrária a educação cidadã, pois nela os conteúdos são transmitidos de maneira acrítica. Libanio (1999, p.30) explica que na abordagem tecnicista o papel do professor é de transmitir o conteúdo e ao aluno compete receber, não existe discussão e diálogo, ambos são apenas espectadores frente à verdade cientifica. Na mesma construção temos a esportivização, nela não existe diálogo frente às regras dos esportes, pois as regras são institucionalizadas e compete ao professor e alunos apenas repeti-las, Darido (2005, p.04) expõe que a abordagem esportivista possui um caráter diretivo, onde o papel do professor “é centralizador e a prático, uma repetição mecânica de movimentos esportivos”.
O aprendizado mecanicista nega o sujeito histórico, pois não problematiza realidade social vigente, quando atuamos de maneira esportivista estamos reproduzindo um conteúdo pronto que os alunos devem executar sem questionamento. Como Freire apresentou, este processo educacional caracteriza-se como uma educação bancaria, ela constitui-se com uma transmissão de conhecimento, uma narração alienante de conteúdos que visa tão somente depositar saberes prontos aos educandos Freire (1996 p. 65-70), o autor salienta que o ato de arquivamento das informações gera gradativamente perda da “consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores deles”.
Para Libânio (1999, p.29) os conteúdos de uma educação tecnicista são desprovidos de subjetividade, entretanto, Neira (2008, p.70-71) fomenta o argumento de que a educação já passou por seu período alienador, quando prestigiava certa parcela (elite) da população de forma passivista cultural e pautava sua prática numa transmissão mecanicista. Hoje, segundo o mesmo autor, a escola é entendida como um espaço possível de luta pelas transformações sociais necessárias, espaço de intercambio capaz de gerarem correntes transformadoras que promovam a ruptura da constante manutenção do status quo.
Cabe salientar que a LDB no art. 27 aborda diretrizes para os conteúdos do currículo da educação básica, neste artigo encontramos o parágrafo IV que reza o seguinte: “promoção de desporto educacional e apoio às práticas desportivas não formais” (BRASIL 1996). Quando focamos nossa atenção nestes aspectos da lei, notadamente entendemos que o esporte no ambiente escolar é didaticamente organizado e pedagogicamente trabalho (DARIDO 2005, p. 185), ao grosso modo, compreende-se que o tipo de esporte que deve existir no ambiente escolar, é o esporte educacional/não formal.
Dando continuidade a nossa temática, discutiremos agora a relevância do Projeto Político Pedagógico e analisaremos a possível relação ou discordância ente este documento e a esportivização.
Segundo Neira (2006) o Projeto Político Pedagógico é a prática pedagógica desenvolvida e as intenções educativas manifestadas da escola. Essa importância encontra razões na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/96) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais. “A forma pela a qual o trabalho escolar é conduzido proporciona a aquisição de conhecimentos, valores e competências específicos” Neira (2006, p.137), construindo em seguida (...) “uma sociedade livre e democrática através de processos de ensino aberto, que estimulem o desenvolvimento dos diversos potenciais individuais dos alunos”. De acordo com Veiga citado por Neira (2006, p.138-139), a proposta do Projeto Político Pedagógico (PPP) é muito mais do que um (...) “simples agrupamento de planos de ensino e atividades diversas”, é o planejar e realizar (...) “antevendo um futuro diferente do presente”. Nessa perspectiva, o Projeto Político Pedagógico, (...) “deve ser coletivamente vivenciado em todos os momentos, por todos os envolvidos com o processo educativo da escola”.
Diante destas afirmações, fica o questionamento sobre o posicionamento do professor de Educação Física na escola, será que ele está inserido neste processo? As escolas muitas vezes não experimentam essa oportunidade de convivência democrática, sendo os projetos elaborados somente pelos coordenadores, também a forma que os mesmos são elaborados, e executados dificulta a participação.
Neira (2006, p.140) Constata que o problema está no trabalho docente, trabalho este de característica solitária e com muitas atividades, desta forma, sem tempo para dar conta de tantas atribuições. Também as (...) “discussões de cunho burocrático: vida funcional, eleição para Conselho de Escola, distribuição dos horários de intervalo, horário da sala de leitura e informática e reprodução de orientações para visitas”.
Vale salientar que Veiga apud Neira (2006, p.142) compreende que o PPP da escola e de fundamental importância para resgatar seu caráter de espaço público de debates e reflexão coletiva, de fato, este documento vem democratizar a escola e caracterizar o tipo de cidadão que esta instituição pretende formar. Por conseguinte, este documento não favorece uma educação diretiva, acrítica e sem subjetividade do tipo tecnicista/esportivista.
Sabe-se que o componente curricular em questão deve está vinculado à proposta pedagógica da escola mediante a compreensão/utilização do PPP para articular, planejar avaliar o processo de ensino-aprendizagem, sendo o propósito fundamenta elaborar atividades pedagógicas com o propósito de desenvolver competências e assegurar a formação do cidadão integral Neira (2006, p. 121), sequenciadamente, o PPP deve pautar objetivo, conteúdo, estratégias e avaliação, entretanto, a Educação física não deve perder de vista sua especificidade e categoricamente deve levar os alunos à reflexão critica e autônoma sobre a cultura corporal (DARIDO 2005, p. 61).
A partir desta conotação temos em analise os documentos norteadores da Educação: Constituição Federal, LDB, PCNs, Projeto Político-Pedagógico e Diretrizes Curriculares, os referidos documentos afirmam que o objetivo da escola é a formação do cidadão participativo, responsável, compromissado, formação do sujeito crítico e criativo. Dentro deste contexto, porque a Educação Física não está inserida nesta proposta educacional?


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